27/01/2010

O mané

Minha escola

Na minha escola
era proibido ser alegre.
Logo de cara, me estrepei:
eu sofria de alegria inata,
doença terrível!
Mas alegria atrapalhava.
Então eu fiquei
triste tristinho
calado caladinho.
Um bom menino
no seu cantinho.


Quando escrevi este poema, achava que estaria fazendo uma crítica à escola em que estudei naqueles repressivos anos de 1970. O tempo passou, o Brasil passou por várias transformações, e a minha crítica – naturalmente – pulou os muros comezinhos da escola, atravessou as ruas para chocar-se com o estilo de vida que se leva nestes dois mil e tanto. Alegria ainda incomoda aos que se levam a sério demais, os quais sentem ojeriza dos arroubos naturais da existência. Portando sorrisos amarelos nos cantos das bocas tortas, estes costumam maldizer os que tiram da vida o peso desnecessário. Ora, vai ser alegre assim na puta que te pariu! – Esbravejam os escarnecedores virados, irados, inchados de si mesmos. Alegria é coisa de criança – continuam – Nós lidamos com a realidade pura, entende? Claro que não entendo. – Vai chorar agora, bebê? – Ou daqui a pouco? Confesso. Choro alguma ausência e as presenças que não me incomodam. Choro pra cachorro. Choro rios e anos a fios. Choro do meu jeito. Choro demais. Confesso! Mas com o meu choro eu me entendo. Agora vocês... estão reféns do medo. Vocês têm medo de dançar. Têm medo de voar. Têm medo do mundo se acabar, da vida se finar neste minuto. Têm medo da minha alegria, esse bicho-papão. Têm medo do amor. Do amor. Têm medo de se enxergarem, tais como são, sem os aditivos dos disfarces. Têm medo de assumirem que expatriaram de si, os próprios sonhos. – Que que é, seu mané, vai nos encarar? – É ridículo o seu discurso. – Você é todo ridículo. – Não temos medo de nada. – Medo, nem da morte! Depois do disse que disse, o mané se retirou. Foi ser alegre e ridículo em outro lugar. Afinal, é duro sofrer de alegria inata.

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