26/01/2010

O ilustre quebrado

Quanto mais olhava nos olhos das pessoas, menos as via. Talvez fosse isso que ansiasse ao mirar os seus semelhantes; não vê-los. Certamente devia ter outros desejos bem menos nobres do que a visibilidade tão sonhada por muitos, e deveras odiada por ele. Sabia que as ruas estavam cheias de olhos. E os olhos gostam de vasculhar o chorume deixado pelo lixo produzido pelos seres humanos. Tamanha bisbilhotice lhe fez dar uma guinada em seu modo de viver, por exemplo, deixou de lado o tradicional café matinal na padoca; o livre exercício da existência como ler as manchetes ou até mesmo tentar ouvir o cacarejar dos poucos galos jograis que ainda resistiam na cidade. E tudo isso foi lhe sucedendo aos poucos. Um pouco a cada dia. Cinco minutos hoje. Dez amanhã. Um dia inteiro depois de amanhã. Uma semana no mês. Um mês no ano. Vários anos na vida. Tornou-se figurinha difícil no bairro em que morava. Sabia que a sua ausência aguçava ainda mais a curiosidade das pessoas, gerando ainda mais e mais mexericos. Então achou que teve uma ideia brilhante. Deixaria de existir existindo. Uma brincadeirinha perigosa, a qual ele levou a sério. Quando se decide por uma coisa dessas deve-se estar muito atento às consequências. As pessoas foram se esquecendo dele. Rapidamente, de notável passou a inotável. Que felicidade! Mas depois de algum tempo, ele sentiu falta dos bajuladores de outrora, dos vasculhadores de sempre, dos amigos relegados à condição de persona non grata. Só aí, então, ele se deu conta do elementar: ninguém pode ser feliz 100% sozinho ou será que pode?

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