Pesquei este belo texto do escritor Wilson Bueno -
na revista Trópico -, o qual faz parte do
livro ainda inédito Racontos de Vila Pequena.
Conversa de cães num bosque de pinheiros

O dia em que chegamos a Curitiba, vindos do Norte
vermelho, o pai, que era o único que lia, leu numa
parede da estação-de-ferro o cartaz que anunciava,
para dali a um dia, no Água Verde, uma conversa
de cães num bosque de pinheiros.
Na pensão da Eufrásio Correia, no mesmo dia seguinte,
logo cedo fomos ver a fonte no meio da praça – como ela
fosse um triunfo. Mulheres nuinhas enroladas em peixes
que vertiam água pela boca verdoenga de limo. Mas sobre
isto, o pai lembrou, o cartaz da estação de ferro não
tinha falado coisa nenhuma.
O pai disse que iria levar as crianças para ouvir a
conversa dos cães no bosque de pinheiros, assim que desse
a hora aprazada. Eu e meu irmão não sabíamos o que era
hora aprazada mas mesmo assim esperamos comportados
como meninas.
No dia seguinte ao dia seguinte o pai disse que era o dia.
E seguimos num ônibus, que tinha a frente feito fosse um
grosso nariz comprido. O Água Verde demorou a aparecer.
E quando o Água Verde apareceu foi um assombro. Tinha
casas de madeira e ruas de pedrinhas nem que a nossa
aldeia caipira.
Aonde descemos do ônibus havia pipoqueiro e vendedor
de algodão doce. Espantou-nos apenas que fossem azuis.
Nunca tínhamos visto algodão doce azul na vida. Mas o que
queríamos mesmo era escutar a conversa dos cães no
bosque de pinheiros que o cartaz da estação de ferro
anunciava o dia em que chegamos a Curitiba.
Mas já era muito tarde, começava a escurecer, e além
do algodão azul o pai não nos comprou mais nada, sempre
falando da conversa dos cães igual que ela fosse um pudim,
salada de frutas, vitamina. Mas já era muito tarde e só
sei que andamos a pé até chegar, quase noite alta, de volta
à pensão da Eufrásio Correia.
Antes de dormir, o pai disse que se nos comportássemos,
no dia seguinte além de irmos de novo à fonte, a gente ia
escutar, no Água Verde, agora sim, a conversa dos cães no
bosque de pinheiros.
*Conheça mais o autor clicando abaixo
http://diariovagau.blogspot.com
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