Percebera que algo mudara. Assim que botou os olhos na coisa vista sentiu um espasmo. Aquele arroubo. A cidade estava vazia. Despovoada de gente, carros e barulhos. A cidade muda, mudada, refundada numa desexistência sem igual, impensável. Cidade impossível, sem sentido. Experimentou um passo e mais outro no gigantesco silêncio. Apalpou-se, deu saltos pra certificar-se de que aquela situação era real. Nem um sinal. Nada. Cadê os bêbados da praça, os atores falastrões, os heróis histriônicos, as putas tristes, as bichas alegres, os meninos de aluguel, os filhos da fumaça, os senhores do esquecimento. Cadê. Essa corja. Ninguém pra tomar um drinque. Ninguém pruma conversa, mesmo sem futuro. Ninguém. Sequer um vira-lata a lamber-lhe gratidão. Seria sábado, domingo ou feriado? Seria Dia Nacional de Ação de Graças? Estaria como figurante de um filme besta, sem graça? Que porra! E a cidade ali petrificada em seu abandono. A cidade dos homens fujões. Esses covardes. Por onde andam os camaradas? Isso não se faz. Arrisca outro passo e mais outro, vê quando uma folha pousa ao chão, toda respeitosa. Venta um vento fino. A cidade não fora destruída por nenhum terremoto. Casas, prédios, viadutos: tudo intacto. A cidade intacta e vazia. Esvaziara-se às dez e quinze da noite. Pelo menos é o que reparou nos relógios parados. Todos eles. Pensou: algo aconteceu. Houvera uma abdução. Só podia ser isto, mas por que não fora abduzido também, se questionava. Mais passos até mirar-se no espelho quebrado duma loja de fantasias. Que palhaçada! Santo Deus! Que porcaria é essa! Quem foi o puto que me botou nesses trajes! Sentiu-se ultrajado. Pierrô! Deu um puta berro, sua voz ecoou. Conspiração. Momo aliado a Hipnos são os culpados, conjecturou. As coisas já não são mais as mesmas. A cidade mudou. Depois disso, não deu mais nem um passo.
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