08/02/2010

Natasha no céu


Nunca pensei que eu fosse ter um cachorro. Passei a infância toda querendo um, coisa impensável na casa dos meus pais. Uma vez, peguei um pintinho numa manjedoura. Fiz de tudo pra escondê-lo. Devia ter uns 5 anos mais ou menos. À noite, coloquei o amarelinho sob as minhas cobertas com o intuíto de abafar os seus raquíticos piados. Criança é fogo. Não pensa nas consequências. Na manhã seguinte, o pintinho estava mortinho da silva. Acho que foi essa a primeira vez que convivi com a morte. E hoje, aos 45 anos de idade, eu vi a morte se consumar novamente. Vou explicar. A Natasha nos foi dada (em 2003) por um amigo, o Paulinho. Ele me disse: “Paulão, a cachorra tem pedigree e tudo o mais. É uma jovem campeã”. O cara falou tanto que acabei me empolgando com a ideia. Mulher, a Natasha é uma boxer tigrada. Linda. Dócil. Um amor. É a oitava maravilha do mundo. Não se preocupe com a sujeira dela, a gente dá um jeito. A cadela do Paulinho agora é nossa! Bicho precisa de cuidados e carinhos. Há uma troca. Bem amado, ele é todo gratidão e quem não é, hein? O Paulinho esquecera de me dizer que a Natasha tinha um probleminha de nada. Coisa que o veterinário depois diagnosticou. Sarna nas quatro patas. Só isso. Nada que uns comprimidos, umas vacinas não resolvam. E lá fomos tratá-la. A vacina até que ia bem, mas os tais comprimidos... a danadinha só os engulia na base de um agradinho: salsicha, fatias e mais fatias de mortadela. Depois de algum tempo, os pêlos brancos voltaram para a nossa alegria. A Natasha se tornou a alegria da nossa casa, dos nossos amigos, das crianças do bairro. Cachorro é tudo de bom, e eu não sabia. Quanto tempo perdido! Virou minha companheira de caminhada. Virou sócia do lixinho próximo ao fogão. Virou freguesa de miolo de pão. Tudo cabia naquele olhar pidão. Até aquele dia. Aquele palavrão. Linfo, o quê? Linfonodos. Essa bola. Que palavrão é esse? “Linfonodos são conhecidos como gânglios linfáticos, são órgãos que consistem de vários tipos de células e são parte do sistema linfático”, a veterenirária foi nos explicando suas consequências. “Essa doença não tem cura”, e continuou “o tratamento será à base de quimioterapia para melhorar a qualidade de vida da Natasha”. De fato, nas primeiras aplicações, embora saísse acabada do hospital, a cadela melhorou. Até ganhou uns quilinhos e como prêmio: reveillón na praia, com direito a mordiscar os restos da comilança. Mas depois disso, seu quadro clínico piorou de novo. Aí, nós vimos a morte esvaziar os olhos caramelados de vida da nossa amada cadela. Nos lembramos da música do Gil: “não tenho medo da morte/ mas sim medo de morrer/ qual seria a diferença/ você há de perguntar/ é que a morte já é depois/ que eu deixar de respirar/ morrer ainda é aqui/ na vida, no sol, no ar/ ainda pode haver dor/ ou vontade de mijar”. A Natasha foi definhando à medida em que ía deslindando cada canto do quintal da nossa casa, como que procurando o local exato para a sua partida, como se isso fosse possível. Ela passou a tarde toda desse domingo com o focinho enfiado na lajota. Só se levantou quando eu cheguei em casa. Cheirou a comida, olhou para a água e seguiu cambaleante pelo quintal até chegar à janela do nosso quarto. O relógio já passava das cinco da tarde. O jogo ia começar. Fim de linha pra Natsha. Debaixo da nossa janela, ela enfiou o focinho - pela última vez - na lajota, antes de partir para o céu de diamantes dos cachorros.

...

5 comentários:

Eliane Kirejjian disse...

Que sofrido, Paulo. Até nessa dor imensa vc consegue fazer um texto lindo. A Natasha é muito querida mesmo. Os cachorros são seres maravilhosos nos dão felicidade e alento. Mesmo quando não há contrapartida....

Eliane

Paulo Netho disse...

Eli,você não imagina o quanto doeu. Mas as coisas merecem passar. Vai passar.

beijão

Lua Encantada disse...

Paulo querido
Sabemos bem o que é essa dor, pois tivemos a Tippy durante 19 anos e quando ela se foi, deixou um vazio imenso.
Todo nosso carinho e respeito pela dor da sua família.
Bjão no coração
Seu texto é LIIIIIIIINDO!!!!!!!!

Anônimo disse...

Sinto muito pelo que aconteceu com a Natasha. Ao contrário de você, em casa sempre tivemos esses pequeninos seres nos alegrando e quando partiam a choradeira era geral. Em novembro de 2008 a minha Nany, uma Yorque lindinha, teve problemas pulmonares e se foi. Viveu comigo durante treze anos e como chorei muito e lamentei demais, a veterinária me disse: Verinha, o que você queria? Explorar a Nany? Veja bem, ela teve o tempo de vida dela. Viveu o bastante para te alegrar e já estava com idade avançada para um cachorrinho. O que a veterinária não entendia é que o convívio com a Nany foi tão grande que até hoje me faz falta e sinto saudades dela. Ainda choro com as recordações que ela deixou. O cães, em especial, nos fazem companhia, são amigos fiéis, sabem quando estamos tristes e respeitam, sabem quando estamos alegres e nos chamam para brincar, sabem quando fazem arte e ficamos bravos, pois logo se escondem, sabem quando não podem nos acompanhar e ficam tristes, percebem quando serão convidados a passear e pulam de alegria... enfim, eles nos conhecem mais do que nós a eles. O mais bonito nisso tudo é o respeito que eles têm com a gente quando estão com muita dor: sofrem calados e só sabemos que não estão bem porque ficam com olhar triste, sem apetite e amuadinhos em um canto qualquer. E mesmo assim nós não conseguimos aprender com eles. São humildes, são maravilhosos, são verdadeiros.

Um beijo no coração e acredite que a Natasha, esteja onde estiver, saberá o quanto foi amada.

Verinha

Anônimo disse...

Fala cumpadi. Que momento marcante. Lindo seu texto, como sempre...e cada vez melhor. Sentirei falta da minha amigona que sempre me recebia cheia de entusiasmo e alegria, fazendo festa com seu jeitão desajeitadão. Mas com certeza agora ela está bem, muito bem, sem mais sofrimentos e só curtindo o merecido céu. E lá se encontrará, quem sabe com o Rocco, a Kika, a Bolinha, o gato Romeu, a Bibi, a Dina, o Mancha, o Pulguinha, e tantos outros bichos que passam por nossas vidas...É uma pena que esses seres encantadores passem tão pouco tempo com a gente. Mas é assim mesmo. A não ser que seja um jabuti...aí são os donos que passam e eles continuam. É isso. Logo logo teremos um novo amiguinho(a) para nos encantar e começar tudo de novo... Um grande abraço irmão. Alberto Camargo.