29/01/2010

Eles e as conchas



Final de tarde, final de verão. Eles se encontraram naquelas areias. Pra puxar assunto ele perguntou qualquer coisa a ela. Foi assim: Você gosta de conchas? Conchas? Sei lá, acho que gosto. Gosto sim. Então vamos tomar uma água de coco? Mas que conversa! Ela aceitou o convite e ele, discretamente, dispensou o chiclete que mascava a séculos. É preciso ter compostura nessa hora. Podemos dar uma volta pela praia? Claro que sim. O sol os seguia. Aos poucos, o céu se alaranjou enquanto o exibido mar fitava-os com aqueles dentões sorridentes. Sentaram-se como índios. Sorveram o líquido docinho do coco gelado. O quê? A carninha!? Adoro! Escuta. O quê? O meu coração. Então, ela grudou os ouvidos no peito dele. Ele sentiu o frescor da tessitura suave da pele dela, o sol a dourava. Tocou-lhe os cabelos, a nuca. Arrepios. Você quer uma concha? Quero sim, obrigada. Filosofou: achava que o mar coubesse numa concha dessas de siri. Está escutando? O quê? O mar, ele disse. Riram das próprias bobices. Ele disse: conchas são criaturas tristes. Ela continuou: sempre são abandonadas numa areia qualquer. Ele foi mais fundo: conchas são como casas desabitadas. No que ela enfatizou: conchas são a própria degradação da espécie, elas carecem habitação. Ela entrou no mar. O que você está fazendo, querida? O mar não está pra brincadeira, ele alertou, mas ela insistiu: Vem? Não dá. Não posso. Não sei nadar!, ele ponderou. Ela, primeiro o achou patético e depois até que engraçado. Mas assim que o céu escureceu de vez, ela não deu mais nenhuma palavra, trancou-se, ensimesmou-se e, desde então, nunca mais apareceu naquelas areias.

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3 comentários:

Sabrina Martinelli Anéas disse...

Ai que saudade doída...

Anônimo disse...

ela está dentro de uma concha nas mesmas areias

Lua Encantada disse...

Ai,tocou fuuuuuundo!!!!