
O pai do menino estava muito distante naquele fim de tarde de domingo. Olhava para o horizonte como se olhasse para o nada; seu olhar devia atravessar o Pico do Jaraguá pra se esconder nas nuvens escuras do outro lado da montanha verde. O olhar do pai do menino parecia que corria - descalço e sem camisa - pela linha do trem como se fosse um fugitivo. Mas o pai do menino não era nem um fugitivo, não. Havia anos, perdera o emprego e por causa disso nunca mais se achou. Só aí o menino ficou sabendo que gente grande também tem seus medos: de amar; de mudar; de se dar; de ser das coisas por inteiro; de deixar de existir existindo; de enfrentar o desconhecido; de não triunfar; de errar; do que os outros vão dizer; de se perder no voo livre da existência. Então, quando o trem passou, o pai do menino -em seu exercício de olhar-, se viu como um dormente paralisado num beco sem saída.
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2 comentários:
Que lindo!!!!!!!
Bjão
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