02/12/2009

Espaço Marcos Rey

No próximo dia 09 de dezembro, às 19h30, a Livraria Saraiva MegaStore do shopping Center Norte, em São Paulo, vai realizar um coquetel de lançamento do Espaço Marcos Rey, em homenagem ao escritor paulistano falecido em 01 de abril de 1999.



Na oportunidade familiares, além de escritores e editores que conheceram o autor estarão presentes. A Livraria Saraiva me convidou para ler a última crônica do autor publicada na Veja São Paulo em 14 de abril de 1999.

Assobios, trinados e gorjeios
Lembranças de vozes da cidade que emudeceram

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Havíamos mudado para um edifício de vinte andares, nós que sempre preferimos morar em residência térrea. Algum tempo depois, minha mulher, Tina, observou: "Notou uma coisa? Ninguém canta neste prédio. Nunca ouvi. Notou?"

Com tanto trabalho pela frente, eu não ia prestar atenção nesse pequeno detalhe sonoro. Mais tarde, porém, percebi que Tininha estava certa. Ninguém cantava nos quarenta apartamentos. Meu filho Janinho, aquele que mora na Groenlândia, de passagem por São Paulo, endossou a observação. Ninguém cantava nos corredores, elevadores ou nas áreas abertas. Nem um simples gorjeio ou trinado. Nem um breve estribilho manjado.

Qualquer barulho que se fizesse, principalmente os mais desagradáveis, ecoava pelo edifício inteiro, verdadeira caixa acústica. Mas nada de alguém assobiando ou cantando uma canção. Antigamente, numa família, uma pessoa ao menos sabia assobiar. E como eram exibidos! Davam verdadeiros concertos. Nas festinhas, arrancavam aplausos. Um amigo meu casou-se com a mais bela do bairro porque a conquistou com O Vôo da Abelha, o grande desafio aos assobiadores.

Certamente ouvíamos música no edifício, mas emitida por aparelhos de som, alguns muito possantes, não, porém, pela voz natural, direto da garganta, amadora, desafinada, catarrenta e sem acompanhamento de orquestra. A voz do CD não é a voz ao vivo, solta, gratuita, à qual nos referimos.

Logo nossa observação foi mais longe: tomou vulto de registro histórico. Nos edifícios de parentes e amigos, no tocante à trilha musical, acontecia a mesma coisa. Idêntico nada. E, apurando os ouvidos, nas ruas da cidade também. Algo havia mudado. Onde estavam os cantores de banheiro, tão comuns em toda família? Nada mais paulistano que um cantor de banheiro. De voz abaritonada, suas qualidades vocais cessavam assim que saíam do chuveiro. Quem eram eles longe da reverberação dos ladrilhos? Mas que fim haviam levado?

Desapareceram igualmente as vozes solitárias da madrugada. Inesquecíveis. Morei numa rua em que, com a maior pontualidade, às 4 horas da tarde, passava alguém, apenas uma sombra, sempre cantando Rancho Fundo, de Ary Barroso, no mais lamuriento dos tons. Devia carregar uma dor profunda, cheia de saudade ou fracasso, muita para um homem só, que ia distribuindo pelos quarteirões, como um leiteiro.

Havia também os cantores matinais. Amavam despertar o prédio ou a rua com a potência de uma voz belicosa. Nenhum galo alcançava maior sucesso. O número preferido desses geralmente era Granada, porque tinha o impacto de uma explosão e a força necessária para arrancar todo mundo da cama. Este não media mais que metro e meio, mas seu volume de voz tornava-o quase um gigante. Quando cantava, crescia no mínimo 12 centímetros. Preso, certa vez, como explorador de mulheres, foi lançado no camburão cantando Granada. Quando o carro dobrou a esquina, ainda se ouvia sua voz.

Muitas profissões exigiam certo fundo musical. Sapateiros no geral eram bons cantores. Barbeiros dedicavam-se mais ao assobio. Alfaiates apreciavam os duetos. Os engraxates, marcando o ritmo no pano, eram os grandes divulgadores do samba. Quantas empregadas domésticas despontavam como cantoras e ficavam famosas! Quase todas cantavam, as primeiras a trazer da rua os sucessos populares. Tivemos uma péssima, mas como era afinadinha, dotada e cheia de bossa. Várias vezes esteve para ser despedida. Sempre deixava a comida queimar. Um dia, meu pai não agüentou, acertou seus dias, pôs o dinheiro no envelope e foi para a cozinha.

- Aqui está o que é seu.

Minha mãe intercedeu:

- Não precisa ir, Neuzinha. A gente fica com você.

- Não se incomode, dona Mariana - replicou ela. - Acabo de assinar contrato com a Tupi, vou ganhar uma nota preta.


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