17/06/2009

Papagaio, arraia, curuja...

Este texto, escrito por Câmara Cascudo, foi retirado do site www.memoriaviva.com.br/cascudo/blog/actahist.htm. Faz parte da sua Acta Diurna 3, a qual foi publicada em Natal-RN, no dia 7 de julho de 1947. Boa leitura.


Papagaio, arraia, curuja de papel, com cauda de molambo, rucega faiscando na ponta numa provocação, ainda o vemos no ar, nas tardes doces de verão, riscando o céu nas descaídas e trepadas bruscas do combate.

Tudo que é humano interessa ao Homem, ensina a Etnografia.

Papagaio é o nome que lhe deram os portugueses. Arraia é uma alusão à forma romboidal do peixe, arraia ou raia, imitada pelo papagaio de papel. Curuja é que não sei a razão...

Sei é que o nosso papagaio de papel, empinado pela mão menina de todos os tempos, tua e minha, despreocupado leitor, nos veio de muito longe e há muito tempo.

Quando os portugueses desembarcaram em Macau, na China, no ano de 1514, impressionaram-se com os papagaios de papel, voando nas alturas, divertimentos de gente moça e de gente velha. Crianças e mandarins, ontem e hoje, há séculos e séculos, brincam com papagaio que no Brasil é apanágio de idade verde.

Não se recordam de Tin-Xim-Fu, o Mandarim de Eça de Queiroz, morto pelo som da campainha mágica quando soltava na tarde macia o seu papagaio de seda amarela?

Ainda os chineses o usam, primeiro de todos os divertimentos, e o exportam para o Japão onde se tornou nacional e popular. John Finnemore descreve uma batalha entre dois papagaios, manobrados por dois pequeninos nipões impassíveis. Cronin, o romancista inglês que todos conhecem, fala no papagaio, no último capítulo do Chaves do Reino (The Keys of Kingdom).

Os portugueses trouxeram o papagaio para a América do Norte, do Centro e do Sul.

E como voava nos céus da China nas primeiras manhãs do século XVI, continuou a fazê-lo sob o Sol dos trópicos.

Com um papagaio, Benjamin Franklin experimentou a eletricidade atmosférica.

Por isso, leitor, vendo um Papagaio, Arraia, Curuja, bailado no ar, lembra-te do teu tempo, das gerações que brincaram com essa lembrança oriental, recebida de chineses quando o Brasil amanhecia para a história do mundo...

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