23/06/2009

Moinho de sonhos*

por João Anzanello Carrascoza

A mulher e o menino iam montados no cavalo; o homem ia ao lado, a pé. Andavam sem rumo havia semanas, até que deram numa aldeia à beira de um rio, onde as oliveiras vicejavam.

Fizeram uma pausa e, como a gente ali era hospitaleira e a oferta de serviço abundante, resolveram ficar. O homem arranjou emprego num moinho próximo à aldeia. A mulher se juntou a outras que colhiam azeitonas em terras ao redor de um castelo. Levou consigo o menino que, no meio do caminho, achou um velho cabo de vassoura e fez dele o seu cavalo. Deu-lhe o nome de Rocinante.

Ao chegar aos olivais, o menino encontrou o filho de outra colhedeira − um garoto que se exibia com um escudo e uma espada de pau.

Os dois se observaram à distância. Cada um se manteve junto à sua mãe, sem saber como se libertar dela. Vigiavam-se. Era preciso coragem para se acercar. Mas meninos são assim: se há abismos, inventam pontes.

De súbito, estavam frente a frente. Puseram-se a conversar, embora um e outro continuassem na sua. Logo esse já sabia o nome daquele: o menino recém-chegado se chamava Alonso; o outro, Sancho.

Começaram a se misturar:

− Deixa eu brincar com seu cavalo? − pediu Sancho.
− Só se você me emprestar a sua espada − respondeu Alonso.

Iam se entendendo, apesar de assustados com a felicidade da nova companhia.

Avançaram na entrega:

− Tá vendo aquele moinho gigante? − apontou Alonso. − Meu pai sozinho é que faz ele girar.
− Seu pai deve ter braços enormes − disse Sancho.
− Tem, mas nem precisava − respondeu Alonso. − Ele move o moinho com um sopro.

Sancho achou graça. Também tinha uma proeza a contar:

− Tá vendo o castelo ali? − apontou. − Meu pai disse que o dono tem tanta terra, que o céu não dá pra cobrir ela toda.
− E se a gente esticasse o céu como uma lona e cobrisse o que tá faltando? − propôs Alonso.
− Vamos − concordou Sancho.

Sentaram-se na relva. O cavalo, a espada e o escudo, entre os dois. Um sopro de vento passou por eles. Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho.

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* Este belíssimo conto faz parte do livro Era Uma Vez Para Sempre, organizado por Marcelo Maluf e ilustrado por Fábio Tremonte (Terracota). O livro já está à venda nas livrarias. Gostei demais da maneira como o livro foi organizado. Autores, ilustrações: tudo de muito bom gosto. No final do volume o escritor Nelson de Oliveira faz uma defesa pertinente sobre a importância da literatura infanto-juvenil.

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3 comentários:

Tatíssima Martinelli disse...

Paulo, vc sabia que o João é meu primo de primeiro graU? Meu e da Sabrina, claro... Meu pai era irmão do pai dele, o João tem um livro de poesias escrito aos 16 anos de idade!

Sabrina Martinelli Anéas disse...

Ah meu Deus,
Só me falta descobrir que vc conhece o João também... vou achar que isso é uma conspiração celeste...rsrsrs
bjs

Cara de Pavio disse...

Não, Sabrina! Eu não conheço o João, apenas tive a felicidade de encontrar esse conto dele no livro: Era uma vez para sempre.

beijos