Nesta entrevista, Chico dos Bonecos revela o processo de construção do livro Muitas coisas, poucas palavras (A oficina do professor Comênio e a arte de ensinar e aprender), recentemente lançado pela Editora Peirópolis.
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Foto: Moises Moraes
De onde nasceu a inspiração para criar esta peça radiofônica?Nasceu da leitura da “Didática Magna”. Fiquei encantado pelas ideias, pela linguagem e pela paixão do professor Comênio. Misturei esse encantamento com a minha experiência em formação de professores e temperei tudo com a minha vivência de poeta, contista e desenrolador de brincadeiras.
Qual a importância da “Didática Magna”?
É um marco na história da educação. Um marco, também, na história das reformas sociais: a ideia de “escola pública”, uma escola para todos, nasce sob a forte inspiração deste autor. Esta obra clássica deu a Comênio os títulos de “o precursor
da pedagogia moderna” e “o pai da didática”.
Comênio viveu em que época?
Ele nasceu em 28 de março de 1592, na região da Morávia –
na atual República Tcheca. Morreu em 15 de novembro de 1670,
em Amsterdã, na Holanda. Ele escreveu mais de duzentas obras.
A “Didática Magna” foi publicada em 1657. Nas comemorações
dos trezentos anos de sua publicação, a Unesco lançou uma
antologia de textos de Comênio. No prefácio desta obra,
Jean Piaget revela a profunda contemporaneidade
deste professor.
E como se desenvolve a peça?
A peça é, simplesmente, Comênio falando para os pais
e os professores de hoje. Suas falas, entretanto, são breves, brevíssimas.
E logo em seguida entra uma canção. É cantoria o tempo todo.
Comênio canta e convida o ouvinte a cantar também.
Quais são as canções do repertório comeniano?
Duas canções – “Meu coração” e “Meu cavalinho” – são de autoria
do compositor mineiro Rubinho do Vale. Todas as outras cantigas
são de domínio público – do universos das canções milenares
e planetárias. Para algumas destas cantigas, agasalhei outras
letras. O capítulo “A peça radiofônica” traz, além dos créditos,
um pouco da história destas canções.
Todas as canções estão no CD que acompanha o livro?
O CD traz a peça completa. Eu interpreto o professor Comênio
e diversos instrumentistas e cantores interpretam as dezoito canções.
A direção musical, as adaptações e os arranjos são de Estêvão Marques.
Qual a duração da peça radiofônica?
Sessenta e dois minutos: trinta e dois minutos de falas comenianas,
vinte e sete minutos de canções e três minutos de uma fábula de
Esopo. As falas de Comênio duram, em média, um minuto.
Tem uma fala, “A utilidade do conhecimento”, que dura apenas
trinta e nove segundos – e logo em seguida entra a canção
“Bem-te-vi quer que eu te veja”.
E por que você pensou a peça com esta dinâmica?
Apenas segui a orientação do próprio Comênio: misturar o útil
ao agradável. Se esta é uma postura importante em relação às
crianças, por que não usar esta mesma proposta em relação
aos pais e aos professores?
Como são as falas comenianas?
São falas poéticas, vibrantes, bem-humoradas, repletas
de comparações – todas elas ligadas à natureza: semente,
sol, terra, árvore... Na “Didática Magna”, Comênio dialoga
com um leitor imaginário – um leitor questionador, provocativo.
Este recurso literário foi incorporado de maneira teatral
– e está sempre presente nas falas reflexivas.
Através desta peça radiofônica podemos conhecer a “Didática Magna”?
Todas as falas, quadro a quadro, estão fundamentadas na “Didática Magna”:
as idéias, as argumentações e as comparações. E, é claro,
a sensibilidade, a emoção, a paixão. O texto final é de minha autoria
– reescrevi tudo para que a fala tivesse a fluência de
uma conversa entre amigos.
Você respondeu a uma parte da pergunta. Afinal,
ouvir esta peça radiofônica equivale a conhecer a “Didática Magna”?
Vamos brincar com os números? A “Didática Magna” tem, aproximadamente,
quatrocentas páginas. Se eu gasto um minuto e meio para ler uma página,
vou gastar seiscentos minutos para ler o livro. Como transformar
dez horas de leitura em apenas trinta minutos de falas reflexivas?
É claro, claríssimo, que quem “recorta e seleciona” já está adotando
um ponto de vista, uma interpretação. Acompanhar os dezessete quadros
desta peça equivale, portanto, a conhecer algumas ideias centrais
deste clássico da pedagogia. Equivale, também, a um convite
para se banhar diretamente na fonte da “Didática Magna”.
E como seria esse banho?
O capítulo “As fontes comenianas” mostra onde estão localizadas
estas ideias na “Didática Magna”. São mais de cento e quarenta
citações – para a delícia do leitor que gosta de montar
quebra-cabeça...
Montar “quebra-cabeça”?
Comparando as fontes com o texto da peça, o leitor curioso
poderá descobrir como se desenvolveu o artesanato literário
a partir da matéria-prima comeniana. Como aquela idéia
ganhou este destaque? Como esta imagem se desdobrou em
outras imagens? Como este argumento se articulou com
outro argumento? Como a poesia e o humor ganharam
tanta importância?
Bem... Para quem gosta de brincar, é um quebra-cabeça
gigante.
E tem mais. O capítulo “Comênio: a obra de uma vida e
a vitalidade de uma obra” revela outros aspectos importantes
deste clássico da educação.
Qual foi o seu ponto de vista para escolher
os conteúdos desta peça?
O ponto de vista foi a palavrinha “hoje”. Selecionei algumas ideias
essenciais que precisam ser cotidianamente relembradas por
todos nós, pais e professores de hoje. Tudo gira em torno
de três temas: a inteligência, a arte de ensinar e a disciplina.
A beleza das reflexões e a clareza das argumentações de Comênio
revitalizam estas ideias, criam um novo poder de convencimento
em torno destas ideias. E o teatro, claro, claríssimo!,
tem um papel importante na revitalização destas reflexões.
O teatro? Como assim?
Comênio não é uma personagem de ficção, mas o espaço cênico
tem a capacidade de criar um ambiente ficcional em torno deste
professor de mais de quatrocentos anos de idade. Esta súbita
mistura de realidade e imaginação estabelece uma rede de
cumplicidade entre o ator e a plateia, o narrador e o ouvinte
– e gera uma recepção mais acolhedora, criativa e crítica.
Na verdade verdadeira, Comênio e teatro formam um par perfeito.
“Par perfeito”? Que história é essa?
Comênio dedicou um enorme carinho ao teatro na escola: montava
peças com os alunos e apresentava para toda a comunidade.
Ele também escrevia peças para seus alunos – como, por exemplo,
“A escola lúdica”. Ele mesmo adaptou algumas de suas obras
para o teatro – como, por exemplo, “A porta aberta das línguas”.
Vamos esclarecer uma coisa. Você estava falando em “peça radiofônica”
e, de repente, começou a falar em “teatro”. Qual a ligação entre
uma coisa e outra?
Além da versão radiofônica, esta peça tem uma versão teatral:
desde janeiro de 2008 venho apresentando a peça “Muitas coisas,
poucas palavras” nas minhas oficinas e palestras para
pais e professores.
E como é a montagem da peça?
A mais simples possível: o ator e a plateia. Eu sou,
ao mesmo tempo, o Comênio que traz as suas reflexões e o
ouvinte imaginário que questiona e provoca – e sou, ainda,
o Comênio que puxa as cantorias com a plateia. Mas... Antes
do professor Comênio apresentar as suas ideias,
eu apresento os meus brinquedos.
Como é que é? Um espetáculo antes do espetáculo?
Mais uma vez, estou apenas seguindo a orientação do professor
Comênio: antes de falar sobre as coisas, eu preciso mostrar
as coisas. Ou seja: antes de falar sobre a arte de ensinar,
eu preciso mostrar a arte de ensinar em ação.
E o que você mostra neste espetáculo-surpresa?
Mostro alguns brinquedos milenares e planetários, sempre contemporâneos
e futuristas: a escada de maracá, o jabolô, o teatro de fantoches...
Nesta versão teatral até os intervalos se transformam em brincadeiras.
Como é que é? “Intervalos”?!
No capítulo “A peça radiofônica”, proponho dois intervalos
bem posicionados – do ponto de vista do tema e do tempo. O primeiro
intervalo acontece aos vinte e um minutos, quando Comênio termina
de falar sobre a criança e a inteligência. O segundo intervalo
acontece aos quarenta e quatro minutos, quando Comênio termina
de dançar os sete passos da arte de ensinar.
Que brincadeira você costuma propor nestes intervalos?
A brincadeira varia em função do número de pessoas, do tempo disponível
e do tipo de espaço. No primeiro intervalo, costumamos cantar,
todos em pé, a parte final da cantiga “A árvore da montanha”
– uma canção com gestos, acumulativa, que já vinha sendo desenrolada
pelo professor Comênio. Em seguida, participamos de uma manhã
na vida da “Menina Janaína” – uma história com gestos. No segundo
intervalo, enfrentamos o desafio de soprar a pena...
Em seguida, enfrentamos o desafio de soprar o fio
– o fio da história, o fio da memória...
Você imagina outras montagens teatrais para esta peça?
Muitas. Por exemplo... Os alunos de uma turma de Pedagogia
querem apresentar esta peça para as outras turmas. Os professores
de uma escola querem apresentar esta peça na próxima reunião
com os pais. O que fazer? Como a peça é dividida em dezessete
quadros, teríamos dezessete “Comênios” – ou até mesmo mais de
um “Comênio” para cada quadro. Isso tornaria a montagem
relativamente simples e rápida, porque os “Comênios” vão
decorar e ensaiar textos bem curtos.
E a parte musical?
Os “Comênios” cantam uma vez e, em seguida, convidam
a plateia a cantar também. Nesta proposta, não estamos
preocupados com o “cantar” profissional, com o “cantar”
a partir de referências técnicas e estéticas. Para nós,
aqui, “cantar” é sinônimo de “brincar” – uma forma simples
e profunda de expressar a nossa humanidade. Mas...
Isso não impede que as canções ganhem um certo ar
de espetáculo.
E de onde viria este ar?
Vamos continuar com aqueles exemplos... Entre os alunos
daquela turma de Pedagogia e entre os professores daquela
escola já existem alguns talentos musicais: cantores e
instrumentistas. Por que não mobilizar estes talentos
para dar um contorno musical mais atraente? Mesmo neste caso,
é claro, claríssimo!, a plateia continua sendo convidada
a cantar também.
No início desta conversa, você falou que trabalha com
formação de professores. O que você aborda neste trabalho?
As relações entre dois verbos: brincar e educar. O meu encantamento
por Comênio, na verdade verdadeira, está diretamente ligado a este tema.
A “Didática Magna” está povoada de palavras que brotam da terra
das brincadeiras: entusiasmo, fervor, construção, diálogo,
prazer, afeto, coração, alegria...
Posso dizer que esta peça é o encontro do professor
Chico dos Bonecos com o professor Comênio?
É isso aí. “Muitas coisas, poucas palavras” é o relato sincero
de um encontro. Não quero falar sobre “aquilo que eu acho que
os outros deveriam ouvir”. Quero falar apenas sobre aquilo
que eu gostei de ouvir, aquilo que me tocou profundamente.
Esta peça reúne as palavras de Comênio que falaram dentro
de mim – e estas são as únicas palavras que podem ter
a pretensão de falar à razão e ao coração do outro.
*Esta entrevista foi pescada do site http://www.editorapeiropolis.com.br/leituras.php?id=18
.
Um comentário:
Tive o prazer de assistir a uma palestra espetáculo, fiquei boqueaberto, ele é muito bom. Me deu vontade e força para fazer um trabalho assim. Baseado no trabalho que faço pretendo me aprimorar. Visite meu blog: www.bonecoshermes.blogspot.com
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